
A pedalada: fases e força
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Pedalar parece um gesto simples porque é redondo. Mas o pé não faz força igual ao longo da volta, as duas pernas não fazem exatamente o mesmo, e o joelho não sobe numa linha reta. A análise em movimento 3D existe para ver estas diferenças, que a sensação não distingue.
O relógio da pedalada
A forma mais fácil de falar da pedalada é imaginar um relógio visto do lado direito da bicicleta. O pedal em cima está às 12 horas, à frente às 3, em baixo às 6, atrás às 9.
Entre as 12 e as 6 horas é a fase de potência: a perna estende-se e empurra o pedal para baixo e para a frente. O binário útil começa pouco depois das 12 e mantém-se até pouco depois das 6. Dentro desta fase, o pico concentra-se entre as 2 e as 4 horas, mais ou menos centrado nas 3, quando a manivela está horizontal e a perna tem a melhor alavanca. É aí que o glúteo e o quadricípite trabalham juntos com mais força.
As 12 e as 6 horas são os pontos mortos: o pedal muda de direção e a perna pouco consegue fazer. Alguma perda nestes pontos é normal, mesmo em profissionais.
Entre as 7 e as 11 horas é a recuperação: a perna sobe. Com o pé preso ao pedal, muita gente assume que puxa; na realidade, o binário nesta fase é muitas vezes nulo ou mesmo negativo, porque a perna que sobe pesa e a outra perna tem de a levantar. Com a fadiga isto piora: estudos com pedais instrumentados mostram que ao fim de uma hora a recuperação fica menos eficaz e a fase de potência tem de compensar.
- Ponto morto superior (12 h) A manivela está no topo e a perna quase não produz força. O joelho e a anca estão no ângulo mais fechado; é aqui que um selim alto ou manivelas longas se fazem sentir.
- Pico de força (3 h) Com a manivela horizontal, a força no pedal é máxima e quase toda vertical. A fase de potência vai de pouco depois das 12 h até pouco depois das 6 h, com o pico entre as 2 h e as 4 h; é onde a posição mais rende.
- Ponto morto inferior (6 h) Perna estendida, força quase nula. O ângulo do joelho aqui (140–150° em movimento, ou seja 30–40° de flexão) é uma das medidas-chave para a altura do selim.
- Recuperação (7–11 h) A perna sobe sem empurrar; é a outra perna que faz o trabalho. Mesmo em ciclistas treinados a força aqui é muitas vezes negativa. Puxar ativamente ajuda pouco; o que importa é não travar o pedal.
- O que o 3D mede A câmara regista cada volta: cadência, o ângulo das articulações em cada fase e a simetria entre a perna esquerda e a direita. Diferenças grandes entre lados orientam o ajuste.
Duas pernas, duas pedaladas
Como as manivelas estão desfasadas 180 graus, quando uma perna está no pico a outra está na recuperação. Em teoria, a soma dá uma curva suave. Na prática, quase ninguém é simétrico. Em ciclistas sem lesão a diferença de binário entre pernas costuma ser pequena, mas sobe com a intensidade: há medições que passam de menos de 10% a baixa potência para bem mais a potências altas. Em esforços longos a assimetria também oscila.
Isto importa por duas razões. Uma assimetria grande e constante pode indicar que uma perna está a compensar a outra, por comprimento, por mobilidade ou por uma dor antiga. E uma assimetria que aparece só quando aumentas a intensidade diz algo sobre a estabilidade da posição. Nenhum destes sinais, sozinho, é um diagnóstico; são pistas para olhar com mais atenção.
O joelho visto de frente
A mesma pedalada vista de frente mostra outra coisa: o percurso do joelho. O ideal que se ensina é um joelho que sobe e desce quase na vertical. A realidade é que alguns centímetros de movimento lateral são normais; as medições em ciclistas saudáveis mostram que o centro do joelho se desloca entre 2 e 8 centímetros no plano frontal. Os sistemas comerciais costumam marcar atenção acima de cerca de 4 centímetros.
Quando o joelho entra para dentro em cada volta, chama-se valgo; quando sai para fora, varo. As causas habituais são a altura do selim, a posição e rotação do cleat, o apoio do pé dentro do sapato e a largura a que os pés estão. Cunhas e palmilhas ajudam algumas pessoas, mas o efeito medido em estudos é modesto e muito individual; a altura do selim costuma pesar tanto ou mais.
- Trajetória ideal Visto de frente, o joelho sobe e desce num plano estável, alinhado com a anca e com o pedal. Algum movimento lateral (2–8 cm) é normal; o 3D procura o desvio que se repete em cada pedalada.
- Para dentro (valgo) O joelho aproxima-se do quadro no topo da pedalada. Costuma ligar-se a cleats mal posicionados, à falta de suporte do arco do pé ou a um selim demasiado alto.
- Para fora (varo) O joelho afasta-se do quadro. Aparece muitas vezes com cleats muito juntos, selim baixo ou uma anca que compensa. Palmilhas e a posição lateral do cleat ajudam.
- Bacia nivelada A bacia deve manter-se estável e nivelada. Se balança de um lado para o outro, o selim pode estar alto ou haver uma assimetria entre as pernas.
- Ombros e mãos Ombros descontraídos à mesma altura e peso igual nas duas mãos. Um lado mais baixo denuncia rotação do tronco ou um guiador largo de mais.
O que a câmara 3D mede
Com marcadores no corpo e várias câmaras, o sistema regista a cada instante onde estão os teus tornozelos, joelhos, anca e ombros. A partir disso calcula coisas que não consegues sentir:
- Cadência real e a sua estabilidade, em vez do número médio que o teu computador mostra.
- Ângulos ao longo de toda a volta, não só no ponto mais baixo: quanto o joelho flete em cima, quanto estende em baixo, quanto a anca fecha.
- Simetria esquerda/direita dos ângulos e das trajetórias, lado a lado.
- Trajetória do joelho no plano frontal, com a amplitude lateral medida em milímetros.
- Movimento da bacia: se oscila para chegar ao pedal, sinal clássico de selim alto.
A diferença entre medir parado e medir a pedalar não é detalhe. A pedalar, o joelho flete mais 5 a 8 graus do que parado, e a posição do joelho em relação ao pedal muda perto de um centímetro. Uma posição ajustada só com a bicicleta parada pode parecer certa e não ser.
O que fazes com isto
Na sessão, estes dados aparecem na avaliação em movimento 3D e servem para orientar os ajustes personalizados. Se o joelho entra muito para dentro, olhamos primeiro para o selim e para o cleat, que tratámos no artigo sobre cleats. Se a assimetria é grande, procuramos a razão antes de mexer. Depois medimos outra vez, na reavaliação, para ver se a mudança fez o que se esperava.
Se sentes que uma perna trabalha mais do que a outra, se tens dor num joelho só, ou se simplesmente queres ver a tua pedalada em números, a análise em movimento é a forma de o fazer. Podes marcar a tua sessão e trazer a tua bicicleta.
Fontes
- FitzGibbon, Vicenzino & Sisto 2016, Int J Sports Phys Ther: intervenções na interface pé-sapato-pedal e movimento frontal do joelho
- Corbett & Bevins 2014, Journal of Science and Cycling: diferenças entre medição estática e dinâmica com captura 3D
- Fase de potência e pico de força na pedalada, dados de pedais de potência e estudos citados


