Bike Fit Lab
Fitter a ajustar o cleat com chave Allen, num sapato de ciclismo branco

Guiador, selim e manivelas: as medidas

· 5 min de leitura

A bicicleta vem montada com um guiador, um selim e umas manivelas que a marca escolheu para o tamanho do quadro, não para o teu corpo. Para muita gente funciona mais ou menos. Para outra, é a origem de dormência nas mãos, de desconforto no selim ou de uma anca que parece sempre fechada. Estes três componentes escolhem-se por medidas, e vale a pena saber quais.

Largura do guiador

A regra clássica diz: guiador tão largo como os ombros. A medida que se usa é a distância entre os dois acrómios, os ossos salientes onde a clavícula encontra a omoplata. Como os guiadores se medem de centro a centro das manetes, costuma somar-se cerca de dois centímetros a essa distância.

Vale como ponto de partida, não mais. A evidência aqui é de fitters, não de estudos: não há acordo sobre como medir o ombro, e cada marca mede o guiador de forma diferente. O que se vê é uma tendência clara para guiadores mais estreitos, 38 a 42 centímetros entre profissionais, por aerodinâmica e porque os punhos ficam alinhados com as manetes. Um guiador demasiado largo abre os ombros e carrega as mãos; um demasiado estreito tira controlo em descida e pode apertar a respiração.

Na sessão, a largura do guiador aparece quando vemos como os ombros e os pulsos ficam nas manetes e nos pontos de apoio. Está ligada ao problema da dormência nas mãos, mas raramente é a única causa.

Largura do selim

Aqui a medida é a distância entre os ísquios, os ossos em que te sentas. Mede-se sentado num cartão ou numa espuma que guarda a marca. A partir daí soma-se uma margem que depende da posição: numa posição desportiva de estrada, cerca de um centímetro; numa posição mais vertical, de BTT ou de passeio, cerca de dois.

A posição conta porque, quanto mais te inclinas, mais o apoio passa dos ísquios para a frente da bacia, onde os ossos convergem. Um selim certo para uma bicicleta de estrada pode ser estreito demais numa de cidade.

A largura não é tudo. Estudos com mapas de pressão mostram que selins mais estreitos aumentam a pressão perineal, e que um selim com bico tradicional produz mais de duas vezes a pressão de modelos sem bico. Mas também mostram algo que surpreende: em ciclistas femininas, os selins com recorte central não reduziram a pressão perineal, aumentaram-na. O recorte ajuda algumas pessoas e não outras, e só a medição diz qual. Explicamos como fazemos essa medição no artigo sobre mapeamento de pressão.

Comprimento das manivelas

A maioria das bicicletas vem com manivelas de 170 a 175 milímetros, quase independentemente do tamanho do quadro. É o componente onde a evidência mais contraria a intuição.

Sobre potência, quase não há diferença. Um estudo que testou manivelas de 120 a 220 milímetros encontrou menos de 4% de variação na potência máxima, com os melhores valores entre 145 e 170. Outro, com mudanças de 5 milímetros em ciclistas amadores, não encontrou alteração na eficiência.

O que muda são os ângulos. Cada 5 milímetros a mais de manivela aumentam a flexão máxima da anca e do joelho em cerca de 2 a 3 graus, porque o pé sobe mais alto no ponto morto superior. Uma manivela mais curta abre a anca em cima, permite baixar um pouco o tronco sem fechar o abdómen e costuma deixar a cadência subir. Por isso, quando a dúvida é entre dois comprimentos, a evidência aponta para o mais curto. Nota: se encurtas a manivela, o pedal em baixo fica mais alto, e o selim sobe o mesmo valor para manter a extensão da perna.

E os pés?

Nenhuma destas três medidas trabalha sozinha. A largura a que os teus pés assentam nos pedais, que se ajusta na posição lateral do cleat, muda como o joelho se alinha com a anca e com o pé. Estudos com distâncias entre pedais diferentes encontraram pequenas diferenças de eficiência, na ordem de 1 a 2%, a favor de posições mais estreitas, mas a resposta é individual.

Sola de um sapato de ciclismo vista de baixo, com o cleat e os seus ajustes À esquerda, a sola de um sapato de estrada com a palmilha em tracejado, os cinco metatarsos em transparência, as cabeças do primeiro e do quinto marcadas, e o cleat de três furos atravessado pela linha do eixo do pedal. À direita, quatro esquemas: avanço e recuo, rotação com float, posição lateral, palmilha e cunhas. Com um ajuste selecionado, o cleat mostra esse movimento. 12345 1.ª 5.ª palmilha Avanço e recuo ao longo do pé Rotação float 0–9° Posição lateral largura da pedalada Palmilha e cunhas ângulo do antepé
  1. Eixo do pedal e metatarsos O eixo do pedal fica entre a 1.ª e a 5.ª cabeça do metatarso, muitas vezes 5–10 mm atrás da 1.ª. É a referência de partida; os outros ajustes fazem-se a partir daqui.
  2. Avanço e recuo O cleat desliza nas ranhuras para a frente e para trás. Recuá-lo costuma aliviar o gémeo e a planta do pé e dar estabilidade; avançá-lo pede mais ao tornozelo.
  3. Rotação (float) O cleat alinha-se com a rotação natural do pé, com a ponta mais para dentro ou para fora. O float (0–9° conforme o cleat) deixa o joelho encontrar o seu caminho sem forçar.
  4. Posição lateral Deslocar o cleat para dentro ou para fora aproxima ou afasta o pé da manivela e define a largura de apoio dos pés (não confundir com o Q-factor, que é a distância entre as manivelas). Quem tem a anca larga costuma precisar de mais largura.
  5. Palmilha e cunhas Muitos antepés estão inclinados em relação ao pedal. Uma palmilha com suporte ou uma cunha fina corrige essa inclinação, para que o joelho suba e desça a direito.
Sapato direito visto de baixo, com a palmilha e os metatarsos em transparência e o cleat de três furos. À direita, os quatro ajustes; toca num para ver o cleat a mexer. Os valores são pontos de partida; a posição final decide-se a pedalar.

A inclinação do antepé, as palmilhas e a rotação do cleat entram no mesmo pacote. Tratámos isto no artigo sobre cleats.

Como se decide na sessão

Na avaliação individual medimos ísquios e ombros e vemos a tua mobilidade de anca, que diz muito sobre a manivela. Na etapa de pé, sapato e cleat fixamos a largura de apoio dos pés. Na avaliação em movimento 3D vemos o que o conjunto faz: se a anca fecha demais em cima, se os ombros estão abertos, se a bacia oscila no selim. Só depois, nos ajustes personalizados, faz sentido falar de trocar componentes.

E dizemos isto com clareza: a maioria das pessoas não precisa de trocar os três. Muitas vezes a largura do guiador está bem e o problema é a altura; ou o selim tem a largura certa e o que falta é inclinar um grau. Só recomendamos a troca quando a medição a justifica, e registamos as medidas na ficha para que, quando trocares, compres uma vez só.

Se já trocaste componentes por tentativa e erro e continuas sem certeza, marca uma sessão e traz o que tens. Começamos pelas medidas do corpo e vemos o que a bicicleta está a fazer com elas.

Fontes

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