Bike Fit Lab
Estúdio Bike Fit Lab com bicicleta de estrada no rolo KICKR, sobre tapete preto

Stack e reach: o tamanho não chega

· 5 min de leitura

Compraste um 54 porque sempre andaste de 54. Ou um M porque na loja te disseram que com a tua altura é M. E depois a bicicleta nova ficou mais esticada, ou mais alta à frente, sem perceberes porquê. O tamanho do quadro é um nome, não uma medida. O que mede são duas coisas chamadas stack e reach.

O que são

Imagina o centro do eixo pedaleiro como origem. O stack é a distância vertical desse ponto ao topo da caixa de direção. O reach é a distância horizontal entre os mesmos dois pontos. Juntos dizem onde o quadro termina à frente, em relação ao sítio onde os teus pés fazem força.

Porquê o pedaleiro? Porque é a partir dele que se define a posição do selim: a altura e o recuo do selim medem-se a partir do eixo. Se o pedaleiro é a referência para o selim e também para o stack e o reach, então as duas metades da tua posição ficam ligadas pelo mesmo ponto.

Bicicleta de estrada de perfil com as medidas da posição e do quadro Desenho de uma bicicleta de estrada vista de lado, com linhas de cota numeradas: 1 Altura do selim, 2 Recuo do selim, 3 Alcance ao guiador, 4 Desnível selim/guiador, 5 Stack, 6 Reach, 7 Comprimento da manivela, 8 Posição das manetes. 12345678
  1. Altura do selim Do centro do pedaleiro ao topo do selim, ao longo do tubo. As fórmulas (0,883 × entrepernas, 109 % até ao eixo do pedal) falham em mais de metade das pessoas; no estúdio parte-se do ângulo do joelho a pedalar, 30–40° de flexão. Alto de mais, a bacia balança; baixo de mais, o joelho fecha demasiado.
  2. Recuo do selim Distância horizontal da ponta do selim à vertical do pedaleiro; mede-se com um fio de prumo. Mais recuo costuma aliviar a frente do joelho e pedir mais aos glúteos; menos recuo põe-te mais por cima do pedal.
  3. Alcance ao guiador Da ponta do selim ao centro do guiador, na horizontal. Resulta do quadro, do avanço e do recuo do selim. Mais alcance estende o tronco e carrega as mãos; menos fecha a anca e encolhe os ombros.
  4. Desnível selim/guiador Diferença de altura entre o topo do selim e o topo do guiador. Mais desnível é mais aerodinâmico mas exige flexibilidade da anca e das costas; menos desnível alivia o pescoço, os ombros e as mãos.
  5. Stack Altura vertical do centro do pedaleiro ao topo do tubo de direção. É a medida que diz quão alto consegues pôr o guiador sem espaçadores a mais. Compara o stack entre bicicletas, não só o tamanho.
  6. Reach Distância horizontal do pedaleiro ao topo do tubo de direção. É o comprimento real do quadro, independente do avanço e do selim. Dois quadros com o mesmo «tamanho» podem ter reach bem diferente.
  7. Comprimento da manivela Do eixo do pedaleiro ao eixo do pedal, 165–175 mm na maioria. Mais curta abre o ângulo da anca e do joelho no ponto morto superior; costuma ajudar quem tem a anca fechada ou dor no joelho.
  8. Posição das manetes Onde a mão assenta nos pousos: altura das manetes no guiador e o seu ângulo. Rodar as manetes muda o apoio do pulso e o alcance efetivo; a rotação do próprio guiador faz o mesmo.
Oito medidas que ficam na ficha. De 1 a 4 descrevem a posição e mudam numa sessão; stack e reach descrevem o quadro e servem para comparar bicicletas. Toca num número para ler.

Porque o tamanho não chega

Os tamanhos tradicionais vêm do comprimento do tubo do selim. Com os quadros atuais, de tubos inclinados e caixas de direção altas ou baixas conforme a vocação da bicicleta, esse comprimento deixou de dizer alguma coisa sobre onde fica o guiador. Dois quadros com o mesmo tamanho nominal podem diferir dois ou três centímetros no stack e um ou dois no reach. É a diferença entre uma posição que te serve e uma que te obriga a esticar o pescoço.

As marcas sabem disto e já publicam stack e reach em todas as tabelas. Algumas vão mais longe e publicam o stack e o reach efetivos, medidos até à posição das manetes, incluindo o avanço e os espaçadores com que a bicicleta vem montada. É útil, porque é aí que as tuas mãos vão estar.

O que podes ajustar e o que não podes

A posição do selim ajusta-se bastante em altura e um pouco em recuo. A frente ajusta-se com três peças: o avanço (comprimento e ângulo), os espaçadores por baixo do avanço e o próprio guiador (alcance e queda). Cada uma destas peças tem limites. Um avanço muito comprido ou muito curto muda o comportamento da direção; uma pilha de espaçadores tem um máximo que o fabricante do garfo permite.

Por isso, se o stack ou o reach do quadro estiverem longe do que precisas, cerca de dois centímetros é um aviso razoável, vale a pena confirmar antes de comprar se as peças conseguem compensar. Quando não conseguem, a solução passa a ser outro tamanho ou outro modelo, e isso só se descobre a tempo se olhares para a tabela de geometria e não só para a letra.

Como ler uma tabela em cinco minutos

Começa pela bicicleta em que já estás bem, se a tiveres. Mede ou procura o stack e o reach dela. Depois compara com a candidata: se o stack for mais baixo, vais precisar de espaçadores ou de um avanço mais inclinado para chegar à mesma altura; se o reach for mais comprido, de um avanço mais curto. Faz as contas antes de te entusiasmares com a pintura.

Repara também na relação entre os dois. Quadros de competição têm o stack baixo em relação ao reach: posição comprida e baixa. Quadros de endurance, gravel e BTT têm o stack mais alto: posição mais curta e vertical. Não há um melhor; há o que combina com a tua mobilidade, o teu uso e o tempo que passas em cima da bicicleta. O artigo sobre BTT e gravel mostra como estas prioridades mudam fora do asfalto.

E lembra-te de que a mesma pessoa não quer o mesmo stack e reach em bicicletas diferentes. Uma bicicleta de contrarrelógio, uma de estrada e uma de BTT pedem posições diferentes, e a geometria de cada uma reflete isso.

O que o bike fit acrescenta

Uma sessão de bike fit não escolhe a bicicleta por ti, mas dá-te a informação que falta: a posição em que o teu corpo funciona bem, traduzida em medidas a partir do pedaleiro. Com a altura e o recuo do selim, o alcance e o desnível ao guiador registados na ficha, consegues calcular que stack e reach de quadro te permitem reproduzir essa posição com um avanço e espaçadores dentro de limites normais.

É também por isso que faz sentido medir antes de comprar, não só depois. Se estás a pensar trocar de bicicleta, uma avaliação da posição atual dá-te números que podes levar para a loja e comparar com qualquer tabela de geometria. Na ficha final ficam exatamente as medidas que precisas. Se tens dúvidas sobre o que a tua bicicleta atual permite, podes marcar uma sessão e trazê-la; começamos por ver o que está bem e o que está a lutar contra a geometria.

Fontes

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