Bike Fit Lab
Câmara 3D de análise de posição montada num tripé

Altura do selim: a fórmula não chega

· 5 min de leitura

Procuraste online como regular o selim, mediste o entrepernas, multiplicaste pelo coeficiente que toda a gente cita e ajustaste. Ou então foi o amigo que sempre pedalou que olhou para ti e disse que estava bom. Em qualquer dos casos, ficaste com um número que talvez funcione e talvez não, e sem forma de saber qual.

O que as fórmulas fazem bem e o que ignoram

Uma fórmula de altura do selim parte de uma ideia razoável: o comprimento da perna determina quanto o selim deve estar afastado do pedal. Como ponto de partida para uma bicicleta nova, ou para quem nunca ajustou nada, serve. É melhor do que um selim montado ao calhas.

O problema é tratá-la como resposta final. Uma fórmula usa uma ou duas medidas e assume que o resto do corpo e da bicicleta se comporta como a média. Ninguém é a média.

O que a fórmula ignora

O cleat e o sapato. A distância real entre o selim e o ponto de apoio do pé depende da espessura da sola, da posição do cleat e do tipo de pedal. Mudar de sapatos ou de pedais altera a altura efetiva sem tocares no selim.

O comprimento das bielas. A mesma altura do selim com bielas diferentes dá extensões de perna diferentes.

O recuo. Altura e recuo do selim influenciam-se mutuamente. Ao avançar ou recuar o selim, a distância ao pedal muda, e uma altura que estava boa deixa de estar.

A mobilidade e as assimetrias. Alguém com pouca flexibilidade nos isquiotibiais ou na anca pode precisar de uma altura diferente de alguém muito flexível, mesmo com pernas do mesmo tamanho. E quem tem uma perna ligeiramente mais curta ou mais fraca costuma compensar, o que a fórmula nunca vê.

O tipo de utilização. Uma bicicleta de estrada para ritmo contínuo, um BTT técnico e uma de contrarrelógio não pedem a mesma lógica. O artigo sobre BTT e gravel mostra como isto muda fora da estrada.

O selim em si. Dois selins com a mesma altura nominal podem ter alturas efetivas diferentes, por causa da espessura, do acolchoamento e do ponto onde te sentas.

Bicicleta de estrada de perfil com as medidas da posição e do quadro Desenho de uma bicicleta de estrada vista de lado, com linhas de cota numeradas: 1 Altura do selim, 2 Recuo do selim, 3 Alcance ao guiador, 4 Desnível selim/guiador, 5 Stack, 6 Reach, 7 Comprimento da manivela, 8 Posição das manetes. 12345678
  1. Altura do selim Do centro do pedaleiro ao topo do selim, ao longo do tubo. As fórmulas (0,883 × entrepernas, 109 % até ao eixo do pedal) falham em mais de metade das pessoas; no estúdio parte-se do ângulo do joelho a pedalar, 30–40° de flexão. Alto de mais, a bacia balança; baixo de mais, o joelho fecha demasiado.
  2. Recuo do selim Distância horizontal da ponta do selim à vertical do pedaleiro; mede-se com um fio de prumo. Mais recuo costuma aliviar a frente do joelho e pedir mais aos glúteos; menos recuo põe-te mais por cima do pedal.
  3. Alcance ao guiador Da ponta do selim ao centro do guiador, na horizontal. Resulta do quadro, do avanço e do recuo do selim. Mais alcance estende o tronco e carrega as mãos; menos fecha a anca e encolhe os ombros.
  4. Desnível selim/guiador Diferença de altura entre o topo do selim e o topo do guiador. Mais desnível é mais aerodinâmico mas exige flexibilidade da anca e das costas; menos desnível alivia o pescoço, os ombros e as mãos.
  5. Stack Altura vertical do centro do pedaleiro ao topo do tubo de direção. É a medida que diz quão alto consegues pôr o guiador sem espaçadores a mais. Compara o stack entre bicicletas, não só o tamanho.
  6. Reach Distância horizontal do pedaleiro ao topo do tubo de direção. É o comprimento real do quadro, independente do avanço e do selim. Dois quadros com o mesmo «tamanho» podem ter reach bem diferente.
  7. Comprimento da manivela Do eixo do pedaleiro ao eixo do pedal, 165–175 mm na maioria. Mais curta abre o ângulo da anca e do joelho no ponto morto superior; costuma ajudar quem tem a anca fechada ou dor no joelho.
  8. Posição das manetes Onde a mão assenta nos pousos: altura das manetes no guiador e o seu ângulo. Rodar as manetes muda o apoio do pulso e o alcance efetivo; a rotação do próprio guiador faz o mesmo.
Oito medidas que ficam na ficha. De 1 a 4 descrevem a posição e mudam numa sessão; stack e reach descrevem o quadro e servem para comparar bicicletas. Toca num número para ler.

Sinais de que a altura não está certa

Não precisas de uma câmara para desconfiar. Há padrões que se repetem:

  • Selim demasiado baixo: o joelho dobra muito no ponto alto da pedalada, sentes carga à frente do joelho e as coxas queimam cedo.
  • Selim demasiado alto: a bacia balança de um lado para o outro para chegar ao pedal, sentes tensão atrás do joelho ou na zona lombar, e o selim parece estar a escorregar-te para a frente.
  • Desconforto no selim sem razão aparente: quando a perna se estica demais, o peso carrega mais na zona sensível.

São indícios, não diagnósticos. A dor no joelho, por exemplo, tem outras origens possíveis, e tratámo-las no artigo sobre dor no joelho.

Como se encontra a altura certa no estúdio

A altura do selim não se decide numa medição isolada, decide-se ao longo de várias etapas da sessão.

Na avaliação individual vemos a tua mobilidade e assimetrias, que definem a margem que tens. Na etapa de pé, sapato e cleat fixamos a interface com o pedal, porque só depois de o cleat estar bem é que a altura faz sentido. Depois, na avaliação em movimento 3D, pedalas na tua bicicleta no rolo e o sistema mede os ângulos principais durante a pedalada, incluindo a extensão da perna e o movimento da bacia. É aqui que se vê se o selim está alto, baixo ou na zona certa, porque o corpo em movimento mostra o que o corpo parado esconde.

Nos ajustes personalizados alteramos a altura em pequenos passos e, quando é preciso, também o recuo. Na reavaliação voltamos a medir, para confirmar que o resultado é melhor e não apenas diferente. Se mexer na altura obriga a mexer no recuo, ou a rever o guiador, fazemo-lo na mesma sessão, para que a posição fique coerente no todo.

Nas medições finais registamos a altura, o recuo e as restantes referências na ficha de medidas. Essa ficha vale ouro quando trocas de selim, de bicicleta ou de pedais, porque tens um ponto de partida real.

Ficha de medidasBike Fit Lab
Esquema das medidas principais na bicicleta Bicicleta de perfil com quatro medidas assinaladas: A, altura do selim; B, recuo do selim; C, distância do selim ao guiador; D, queda do guiador em relação ao selim. A B C D
  1. A Altura do selimDo centro do pedaleiro ao topo do selim. — mm
  2. B Recuo do selimQuanto o selim fica atrás do eixo do pedaleiro. — mm
  3. C Distância selim–guiadorAlcance até ao guiador (reach). — mm
  4. D QuedaDiferença de altura entre selim e guiador (drop). — mm
  5. Inclinação do selimÂngulo do selim em relação à horizontal. — °
  6. Largura do guiadorMedida entre as manetes. — mm
  7. Posição dos cleatsAvanço, rotação e eventuais calços, por pé. — / —
  8. Comprimento da manivelaO que tens e o que recomendamos. — mm
Acompanhamento2 meses
A ficha regista a posição final para a poderes reproduzir noutra bicicleta ou depois de uma mudança de componentes. Os valores são os teus; aqui ficam em branco.

Se vais mexer sozinho

Se não vais marcar uma sessão agora, algumas regras ajudam a não piorar as coisas:

  • Altera uma coisa de cada vez e anota o valor antes de mexer.
  • Faz alterações pequenas e dá-lhes algumas saídas antes de concluir.
  • Marca a posição do tubo do selim com fita ou um traço, para poderes voltar atrás.
  • Se mudaste a altura e o desconforto aumentou, volta ao valor anterior em vez de insistir.

Se sentes desconforto recorrente, se mudaste de equipamento ou se simplesmente queres saber se a tua posição é a certa, uma medição com análise em movimento dá-te uma resposta que a fórmula não consegue dar. Podes ver os valores na tabela de preços ou marcar a tua sessão e dizer-nos o que já tentaste.

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