Bike Fit Lab
Fitter a ajustar o cleat com chave Allen, num sapato de ciclismo branco

Uma perna mais curta? Dor de um só lado

· 5 min de leitura

Quase todas as queixas de ciclismo têm uma versão "só de um lado": o joelho esquerdo que dói e o direito que não, a nádega direita que adormece, a lombar que carrega sempre do mesmo lado. Quando a dor é assimétrica, a primeira pergunta do fitter é se as pernas são iguais. Muitas vezes não são, e a bicicleta é dos poucos sítios onde isso se nota.

Porque a bicicleta não perdoa

A andar, o corpo compensa uma perna mais curta sem dares conta: a bacia inclina, o pé roda, o passo ajusta-se. Na bicicleta, com pedais de encaixe, essa compensação fica bloqueada. Os dois pés estão fixos a dois pedais à mesma distância do selim, e o selim está a uma só altura. A perna mais comprida flete mais no topo da pedalada; a mais curta estica mais em baixo e tende a "pontear", com a ponta do pé para baixo à procura do pedal, e a bacia bascula para a acompanhar.

Repetido milhares de vezes por hora, este desequilíbrio aparece onde o corpo tem menos tolerância: atrás de um joelho, à frente da anca da perna comprida, na lombar de um lado, num ísquio que recebe mais carga do que o outro.

Estrutural ou funcional: não é a mesma coisa

Há dois tipos de diferença, e tratam-se de forma diferente.

Estrutural é quando o osso é mesmo mais curto: um fémur ou uma tíbia de comprimento diferente, uma fratura antiga, uma prótese. Não muda com alongamentos.

Funcional é quando os ossos são iguais mas a bacia está rodada ou inclinada, por hábito, por rigidez de um lado ou por uma lesão antiga. A perna parece mais curta sem o ser. Aqui, corrigir com um calço pode fixar o problema em vez de o resolver, e o caminho passa muitas vezes pela fisioterapia.

Distinguir os dois é o ponto mais importante da avaliação, e é por isso que a medição a olho ou com fita métrica não chega.

Ciclista de perfil com os ângulos medidos na análise 3D Desenho de um ciclista a pedalar numa bicicleta de estrada. Marcam-se os ângulos do joelho (que varia ao longo da pedalada, de 75 a 155 graus), da anca, do tronco, do cotovelo e do tornozelo, os pontos de contacto no pedal, selim e guiador, e seis pontos onde costuma surgir desconforto. 1 2 3 4 5
  1. 1Joelho
  2. 2Anca
  3. 3Tronco
  4. 4Cotovelo
  5. 5Tornozelo
Cinco ângulos medidos em movimento (o do joelho muda a cada volta), três pontos de contacto (pedal, selim e guiador) e os pontos onde o desconforto costuma aparecer. Toca num ponto para ver a causa habitual.

Como se mede, e porque a fita engana

Medir da anca ao tornozelo com uma fita dá valores que mudam conforme a pessoa está deitada, de pé ou com a bacia inclinada. Pode medir uma diferença funcional como se fosse estrutural, ou esconder uma estrutural pequena.

Na sessão fazemos três coisas. Primeiro, observação fora da bicicleta: altura das cristas da bacia, dos joelhos sentado e deitado, do comprimento de cada segmento. Segundo, a pedalar: vista de trás, procuramos uma bacia que cai para um lado, um calcanhar mais baixo ou mais aberto do que o outro, um joelho que descreve uma curva diferente. Terceiro, verificamos em mais de um selim quando temos dúvidas, porque certas formas de selim mascaram a assimetria. Quando a diferença parece grande ou a história clínica o justifica, a imagiologia é quem dá o número exato, e isso é pedido pelo médico, não pelo fitter.

O que se corrige

A recomendação clínica de referência é simples de enunciar: ajusta-se o selim à perna comprida e compensa-se a perna curta no pedal. A compensação tem várias ferramentas:

  • Calço (shim). Uma placa plana entre o cleat e a sola, que "alonga" a perna curta no ponto onde ela toca no pedal. É a ferramenta para diferenças de tíbia, porque a tíbia é o que separa o joelho do pedal.
  • Posição do cleat. Para diferenças pequenas, uma regra prática que circula nos manuais de fitting diz: com menos de 6 mm, mover o cleat da perna curta 1 a 2 mm para a frente; com 3 mm ou mais e dor lombar, ou acima de 6 mm, calço. Diferenças de fémur tratam-se mais pela posição do cleat do que pelo calço. São regras de oficina, com evidência fraca, e por isso o resultado confirma-se sempre a pedalar.
  • Manivelas de comprimento diferente. Existe como opção, mas é rara e cara; a maioria dos casos resolve-se com calço e cleat.

Há um princípio que vale a pena repetir, e que vem de um dos fitters mais citados neste tema: corrige-se cerca de metade da diferença estrutural medida e reavalia-se. O corpo viveu anos com a assimetria e adaptou-se a ela; corrigir tudo de uma vez cria um problema novo do outro lado. O artigo sobre posição dos cleats explica o resto do que se ajusta no pé.

E a potência esquerda/direita?

Muitos medidores de potência mostram o equilíbrio entre pernas, e é tentador usar 48/52 como prova de assimetria. Convém ter calma. Diferenças de 0 a 10% entre lados são normais e aumentam com a intensidade. Um valor desses sozinho não diz se há uma perna mais curta, uma bacia rodada ou simplesmente uma perna mais forte. Serve como mais um dado, ao lado do que se vê a pedalar.

Quando é bike fit e quando não é

Se a dor é só de um lado, aparece a pedalar e passa fora da bicicleta, há boas hipóteses de a posição ter um papel. O artigo sobre dor no joelho e o mapa de sintomas ajudam a localizar a queixa.

Procura um médico se a dor unilateral veio depois de uma queda, se há dormência ou perda de força na perna, ou se persiste em repouso. E se a diferença entre pernas é conhecida e grande, traz os exames que tiveres à sessão: poupam tempo e evitam adivinhar.

Para começar, marca uma sessão e diz-nos de que lado dói. É a pergunta por onde começamos.

Fontes

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