
Os números do bike fit
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Quando vês uma ficha de bike fit pela primeira vez, parece uma lista de números com unidades estranhas: graus de joelho, milímetros de recuo, percentagens de entrepernas. Vale a pena perceber de onde vêm, porque assim também percebes porque é que nenhum deles é uma resposta exata.
O que se mede na bicicleta
A bicicleta tem meia dúzia de medidas que definem onde o teu corpo pode estar. A altura do selim, do centro do pedaleiro ao topo do selim. O recuo do selim, da ponta do selim à vertical do eixo do pedaleiro. O alcance, da ponta do selim ao centro do guiador. O desnível entre o topo do selim e o topo do guiador. O comprimento da manivela. E a posição das manetes no guiador. Por baixo disto está a geometria do quadro, o stack e o reach, de que falamos no artigo sobre stack e reach.
- Altura do selim Do centro do pedaleiro ao topo do selim, ao longo do tubo. As fórmulas (0,883 × entrepernas, 109 % até ao eixo do pedal) falham em mais de metade das pessoas; no estúdio parte-se do ângulo do joelho a pedalar, 30–40° de flexão. Alto de mais, a bacia balança; baixo de mais, o joelho fecha demasiado.
- Recuo do selim Distância horizontal da ponta do selim à vertical do pedaleiro; mede-se com um fio de prumo. Mais recuo costuma aliviar a frente do joelho e pedir mais aos glúteos; menos recuo põe-te mais por cima do pedal.
- Alcance ao guiador Da ponta do selim ao centro do guiador, na horizontal. Resulta do quadro, do avanço e do recuo do selim. Mais alcance estende o tronco e carrega as mãos; menos fecha a anca e encolhe os ombros.
- Desnível selim/guiador Diferença de altura entre o topo do selim e o topo do guiador. Mais desnível é mais aerodinâmico mas exige flexibilidade da anca e das costas; menos desnível alivia o pescoço, os ombros e as mãos.
- Stack Altura vertical do centro do pedaleiro ao topo do tubo de direção. É a medida que diz quão alto consegues pôr o guiador sem espaçadores a mais. Compara o stack entre bicicletas, não só o tamanho.
- Reach Distância horizontal do pedaleiro ao topo do tubo de direção. É o comprimento real do quadro, independente do avanço e do selim. Dois quadros com o mesmo «tamanho» podem ter reach bem diferente.
- Comprimento da manivela Do eixo do pedaleiro ao eixo do pedal, 165–175 mm na maioria. Mais curta abre o ângulo da anca e do joelho no ponto morto superior; costuma ajudar quem tem a anca fechada ou dor no joelho.
- Posição das manetes Onde a mão assenta nos pousos: altura das manetes no guiador e o seu ângulo. Rodar as manetes muda o apoio do pulso e o alcance efetivo; a rotação do próprio guiador faz o mesmo.
Estas medidas são as que ficam na ficha no fim da sessão, porque são as que consegues repor noutra bicicleta ou depois de uma troca de componentes.
O que se mede no corpo
As medidas da bicicleta só fazem sentido pelo efeito que têm no corpo. Por isso a avaliação em movimento 3D mede ângulos articulares enquanto pedalas, e não só com a bicicleta parada.
Ângulo do joelho no ponto mais baixo da pedalada. É o número mais citado em bike fit. A referência clássica, de Holmes e Pruitt nos anos 90, aponta para 25 a 35 graus de flexão com o ciclista parado e o pedal em baixo. Mas a pedalar o joelho flete mais do que parado, tipicamente entre 5 e 8 graus. Por isso, quando a medição é dinâmica, a faixa passa a 30 a 40 graus. Se alguém te disser "o teu joelho está a 32 graus", a primeira pergunta é: parado ou a pedalar?
Ângulo do tronco. Medido em relação à horizontal, com as mãos nas manetes. Na estrada desportiva anda entre 30 e 45 graus; em posições de conforto, BTT ou gravel, sobe para 40 a 60. Este número depende tanto da tua mobilidade e do tempo que passas em cima da bicicleta como da própria bicicleta.
Cotovelo e ombro. O cotovelo costuma ficar com uma flexão ligeira, perto de 20 a 30 graus, para absorver o piso. Para o ombro ouve-se muitas vezes "90 graus", mas não existe uma recomendação publicada; o que há são médias de ciclistas em posições livres, que ficam bastante acima disso. É um bom exemplo de número que circula sem base.
Joelho visto de frente. O joelho não sobe e desce numa linha perfeita. Alguns centímetros de movimento lateral são normais; o que se procura são desvios grandes ou muito diferentes entre as duas pernas, e esses ligam-se muitas vezes à altura do selim, ao cleat ou ao apoio do pé.
- 1Joelho
- 2Anca
- 3Tronco
- 4Cotovelo
- 5Tornozelo
Porque são intervalos e não números
Há três razões para nunca veres um valor único.
Primeiro, a medição tem erro. Mesmo com câmaras 3D, o erro típico de um ângulo de joelho ronda 2 graus; com goniómetro e a bicicleta parada, passa de 4. Um intervalo de 10 graus absorve esse erro.
Segundo, a evidência é de intervalos. Os estudos que compararam alturas de selim encontraram melhor economia (menos oxigénio para a mesma potência) com o joelho mais esticado, perto dos 25 graus estáticos, do que a 35 ou com a fórmula dos 109% do entrepernas. Mas a mesma fórmula deixou entre 63% e 73% das pessoas fora da faixa recomendada. Ou seja, os números servem para dizer "estás dentro ou fora", não para dizer "é exatamente aqui".
Terceiro, o corpo não é simétrico nem estável. A tua mobilidade de anca, a flexibilidade dos isquiotibiais, uma perna um pouco mais curta, o cansaço ao fim de uma hora: tudo isto move os ângulos. Um bom fit coloca-te numa zona onde essas variações não te empurram para fora do que o corpo tolera.
O que isto muda na prática
Quando lês que "o selim deve estar a 0,883 vezes o entrepernas" ou "a 109%", lê como ponto de partida. A fórmula do 0,883 nasceu nos anos 80 com pedais de gaiola e solas de couro; não vê a espessura da tua sola, o comprimento da manivela nem o selim que usas. Explicamos isto com mais detalhe no artigo sobre altura do selim.
Quando um fitter te dá um ângulo, pergunta como foi medido. E quando te derem um intervalo em vez de um número, não é falta de precisão: é a forma honesta de dizer o que a evidência diz.
Na sessão, estes valores aparecem na avaliação em movimento 3D, mudam nos ajustes personalizados, confirmam-se na reavaliação e ficam registados nas medições finais. A ficha não é um certificado de perfeição; é o registo de uma posição que funcionou para ti, dentro de intervalos que fazem sentido.
Fontes
- Holliday & Swart 2021, Sports Medicine and Health Science: intervalos recomendados e médias medidas em 50 ciclistas
- Ferrer-Roca et al. 2012, J Strength Cond Res: medição estática vs dinâmica da altura do selim
- Peveler & Green 2011, J Strength Cond Res: economia e potência a 25°, 35° e 109% do entrepernas


