Bike Fit Lab
Câmara 3D de análise de posição montada num tripé

Os números do bike fit

· 5 min de leitura

Quando vês uma ficha de bike fit pela primeira vez, parece uma lista de números com unidades estranhas: graus de joelho, milímetros de recuo, percentagens de entrepernas. Vale a pena perceber de onde vêm, porque assim também percebes porque é que nenhum deles é uma resposta exata.

O que se mede na bicicleta

A bicicleta tem meia dúzia de medidas que definem onde o teu corpo pode estar. A altura do selim, do centro do pedaleiro ao topo do selim. O recuo do selim, da ponta do selim à vertical do eixo do pedaleiro. O alcance, da ponta do selim ao centro do guiador. O desnível entre o topo do selim e o topo do guiador. O comprimento da manivela. E a posição das manetes no guiador. Por baixo disto está a geometria do quadro, o stack e o reach, de que falamos no artigo sobre stack e reach.

Bicicleta de estrada de perfil com as medidas da posição e do quadro Desenho de uma bicicleta de estrada vista de lado, com linhas de cota numeradas: 1 Altura do selim, 2 Recuo do selim, 3 Alcance ao guiador, 4 Desnível selim/guiador, 5 Stack, 6 Reach, 7 Comprimento da manivela, 8 Posição das manetes. 12345678
  1. Altura do selim Do centro do pedaleiro ao topo do selim, ao longo do tubo. As fórmulas (0,883 × entrepernas, 109 % até ao eixo do pedal) falham em mais de metade das pessoas; no estúdio parte-se do ângulo do joelho a pedalar, 30–40° de flexão. Alto de mais, a bacia balança; baixo de mais, o joelho fecha demasiado.
  2. Recuo do selim Distância horizontal da ponta do selim à vertical do pedaleiro; mede-se com um fio de prumo. Mais recuo costuma aliviar a frente do joelho e pedir mais aos glúteos; menos recuo põe-te mais por cima do pedal.
  3. Alcance ao guiador Da ponta do selim ao centro do guiador, na horizontal. Resulta do quadro, do avanço e do recuo do selim. Mais alcance estende o tronco e carrega as mãos; menos fecha a anca e encolhe os ombros.
  4. Desnível selim/guiador Diferença de altura entre o topo do selim e o topo do guiador. Mais desnível é mais aerodinâmico mas exige flexibilidade da anca e das costas; menos desnível alivia o pescoço, os ombros e as mãos.
  5. Stack Altura vertical do centro do pedaleiro ao topo do tubo de direção. É a medida que diz quão alto consegues pôr o guiador sem espaçadores a mais. Compara o stack entre bicicletas, não só o tamanho.
  6. Reach Distância horizontal do pedaleiro ao topo do tubo de direção. É o comprimento real do quadro, independente do avanço e do selim. Dois quadros com o mesmo «tamanho» podem ter reach bem diferente.
  7. Comprimento da manivela Do eixo do pedaleiro ao eixo do pedal, 165–175 mm na maioria. Mais curta abre o ângulo da anca e do joelho no ponto morto superior; costuma ajudar quem tem a anca fechada ou dor no joelho.
  8. Posição das manetes Onde a mão assenta nos pousos: altura das manetes no guiador e o seu ângulo. Rodar as manetes muda o apoio do pulso e o alcance efetivo; a rotação do próprio guiador faz o mesmo.
Oito medidas que ficam na ficha. De 1 a 4 descrevem a posição e mudam numa sessão; stack e reach descrevem o quadro e servem para comparar bicicletas. Toca num número para ler.

Estas medidas são as que ficam na ficha no fim da sessão, porque são as que consegues repor noutra bicicleta ou depois de uma troca de componentes.

O que se mede no corpo

As medidas da bicicleta só fazem sentido pelo efeito que têm no corpo. Por isso a avaliação em movimento 3D mede ângulos articulares enquanto pedalas, e não só com a bicicleta parada.

Ângulo do joelho no ponto mais baixo da pedalada. É o número mais citado em bike fit. A referência clássica, de Holmes e Pruitt nos anos 90, aponta para 25 a 35 graus de flexão com o ciclista parado e o pedal em baixo. Mas a pedalar o joelho flete mais do que parado, tipicamente entre 5 e 8 graus. Por isso, quando a medição é dinâmica, a faixa passa a 30 a 40 graus. Se alguém te disser "o teu joelho está a 32 graus", a primeira pergunta é: parado ou a pedalar?

Ângulo do tronco. Medido em relação à horizontal, com as mãos nas manetes. Na estrada desportiva anda entre 30 e 45 graus; em posições de conforto, BTT ou gravel, sobe para 40 a 60. Este número depende tanto da tua mobilidade e do tempo que passas em cima da bicicleta como da própria bicicleta.

Cotovelo e ombro. O cotovelo costuma ficar com uma flexão ligeira, perto de 20 a 30 graus, para absorver o piso. Para o ombro ouve-se muitas vezes "90 graus", mas não existe uma recomendação publicada; o que há são médias de ciclistas em posições livres, que ficam bastante acima disso. É um bom exemplo de número que circula sem base.

Joelho visto de frente. O joelho não sobe e desce numa linha perfeita. Alguns centímetros de movimento lateral são normais; o que se procura são desvios grandes ou muito diferentes entre as duas pernas, e esses ligam-se muitas vezes à altura do selim, ao cleat ou ao apoio do pé.

Ciclista de perfil com os ângulos medidos na análise 3D Desenho de um ciclista a pedalar numa bicicleta de estrada. Marcam-se os ângulos do joelho (que varia ao longo da pedalada, de 75 a 155 graus), da anca, do tronco, do cotovelo e do tornozelo, os pontos de contacto no pedal, selim e guiador, e seis pontos onde costuma surgir desconforto. 1 2 3 4 5
  1. 1Joelho
  2. 2Anca
  3. 3Tronco
  4. 4Cotovelo
  5. 5Tornozelo
Cinco ângulos medidos em movimento (o do joelho muda a cada volta), três pontos de contacto (pedal, selim e guiador) e os pontos onde o desconforto costuma aparecer. Toca num ponto para ver a causa habitual.

Porque são intervalos e não números

Há três razões para nunca veres um valor único.

Primeiro, a medição tem erro. Mesmo com câmaras 3D, o erro típico de um ângulo de joelho ronda 2 graus; com goniómetro e a bicicleta parada, passa de 4. Um intervalo de 10 graus absorve esse erro.

Segundo, a evidência é de intervalos. Os estudos que compararam alturas de selim encontraram melhor economia (menos oxigénio para a mesma potência) com o joelho mais esticado, perto dos 25 graus estáticos, do que a 35 ou com a fórmula dos 109% do entrepernas. Mas a mesma fórmula deixou entre 63% e 73% das pessoas fora da faixa recomendada. Ou seja, os números servem para dizer "estás dentro ou fora", não para dizer "é exatamente aqui".

Terceiro, o corpo não é simétrico nem estável. A tua mobilidade de anca, a flexibilidade dos isquiotibiais, uma perna um pouco mais curta, o cansaço ao fim de uma hora: tudo isto move os ângulos. Um bom fit coloca-te numa zona onde essas variações não te empurram para fora do que o corpo tolera.

O que isto muda na prática

Quando lês que "o selim deve estar a 0,883 vezes o entrepernas" ou "a 109%", lê como ponto de partida. A fórmula do 0,883 nasceu nos anos 80 com pedais de gaiola e solas de couro; não vê a espessura da tua sola, o comprimento da manivela nem o selim que usas. Explicamos isto com mais detalhe no artigo sobre altura do selim.

Quando um fitter te dá um ângulo, pergunta como foi medido. E quando te derem um intervalo em vez de um número, não é falta de precisão: é a forma honesta de dizer o que a evidência diz.

Na sessão, estes valores aparecem na avaliação em movimento 3D, mudam nos ajustes personalizados, confirmam-se na reavaliação e ficam registados nas medições finais. A ficha não é um certificado de perfeição; é o registo de uma posição que funcionou para ti, dentro de intervalos que fazem sentido.

Fontes

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