Bike Fit Lab
Câmara 3D de análise de posição montada num tripé

Bike fit para crianças e jovens

· 5 min de leitura

Uma criança cresce vários centímetros por ano, e a bicicleta não. É por isso que a posição das crianças e dos jovens está quase sempre errada em algum momento, e quase sempre pela mesma razão: a bicicleta foi comprada "para durar". Este artigo é para pais, treinadores e jovens ciclistas que querem perceber o que olhar, e quando a dor não é coisa de bicicleta.

A bicicleta "para durar" é o problema

Comprar um tamanho acima para a criança "crescer para lá" é o erro mais comum. Um quadro grande obriga a um alcance demasiado longo, com os braços esticados e o pescoço a compensar, e muitas vezes a um selim baixo para que os pés cheguem ao chão. O tamanho de uma bicicleta de criança decide-se pela roda e pelo entrepernas, não pelo tubo de selim, e a criança deve conseguir controlar a bicicleta agora, não daqui a dois anos. As regras de polegar que circulam, como "manivela a 10% da altura", divergem entre fontes e não são norma.

Em bicicletas de competição juvenis aplica-se a mesma lógica que nos adultos: o stack e o reach do quadro dizem mais do que a etiqueta de tamanho.

Altura do selim em crescimento

A altura do selim é o parâmetro com mais evidência em bike fit, e é também o que mais se desatualiza numa criança. Uma variação de 5% na altura do selim altera a cinemática do joelho em cerca de 35%. Com um crescimento de alguns centímetros de perna, um selim que estava certo passa a estar baixo, e um selim baixo aumenta a flexão do joelho e a compressão à frente da rótula a cada pedalada.

A prática sugere rever a altura do selim a cada 3 a 4 meses em fases de crescimento rápido, e sempre que a criança mude de sapatos ou de pedais. Como ponto de partida serve o mesmo método dos adultos, descrito no artigo sobre altura do selim; o que muda é a frequência. Um sinal fácil de ver: se a criança pousa o pé inteiro no chão sentada no selim, o selim está quase de certeza baixo para pedalar.

Ciclista visto de frente com as trajetórias do joelho Desenho de um ciclista de frente, na bicicleta. Numa perna o joelho sobe e desce num plano estável, a trajetória certa. Na outra marcam-se dois desvios: para dentro (valgo) e para fora (varo). Marcam-se também a bacia nivelada e os ombros e mãos. 12345
  1. Trajetória ideal Visto de frente, o joelho sobe e desce num plano estável, alinhado com a anca e com o pedal. Algum movimento lateral (2–8 cm) é normal; o 3D procura o desvio que se repete em cada pedalada.
  2. Para dentro (valgo) O joelho aproxima-se do quadro no topo da pedalada. Costuma ligar-se a cleats mal posicionados, à falta de suporte do arco do pé ou a um selim demasiado alto.
  3. Para fora (varo) O joelho afasta-se do quadro. Aparece muitas vezes com cleats muito juntos, selim baixo ou uma anca que compensa. Palmilhas e a posição lateral do cleat ajudam.
  4. Bacia nivelada A bacia deve manter-se estável e nivelada. Se balança de um lado para o outro, o selim pode estar alto ou haver uma assimetria entre as pernas.
  5. Ombros e mãos Ombros descontraídos à mesma altura e peso igual nas duas mãos. Um lado mais baixo denuncia rotação do tronco ou um guiador largo de mais.
Vista de frente, como a vê a câmara 3D. Uma perna mostra a trajetória estável do joelho; a outra, os dois desvios habituais. O movimento é esquemático.

Manivelas proporcionais ao fémur

A manivela é descrita por quem trabalha com bicicletas de criança como o componente mais crítico, e o erro mais comum é ser demasiado comprida. Uma manivela de 150 mm numa criança de 1,30 m é proporcionalmente muito maior do que 175 mm num adulto de 1,80 m, e obriga a anca e o joelho a fecharem muito no topo da pedalada. Existem manivelas juvenis dos 6 aos 14 anos, com fator Q estreito, ou seja, com os pedais mais próximos um do outro, adequados a uma bacia estreita.

Em adultos, cada 5 mm a mais de manivela aumenta a flexão máxima da anca e do joelho em cerca de 2 a 3 graus; numa criança, a mesma diferença pesa mais. O artigo sobre manivelas curtas explica a mecânica.

Guiador e alcance em quadros grandes

O segundo efeito do quadro grande é o alcance. Com o guiador demasiado longe, a criança estica os braços, bloqueia os cotovelos e levanta o pescoço para ver a estrada. Em bicicletas de estrada juvenis, as manetes de travão são muitas vezes grandes demais para as mãos, e a criança trava com dificuldade. Avanço mais curto, guiador mais estreito e manetes ajustáveis para mãos pequenas são ajustes baratos que mudam muito.

Dor anterior do joelho no adolescente

Aqui é preciso cuidado. Um adolescente em crescimento que se queixa de dor abaixo da rótula, num ponto bem localizado e doloroso ao toque, pode ter uma apofisite de crescimento, como a doença de Osgood-Schlatter ou a de Sinding-Larsen-Johansson. São inflamações do ponto onde o tendão se insere no osso ainda em crescimento, e são frequentes em jovens desportistas. Não são bike fit. Exigem avaliação e gestão médica, e um selim bem ajustado ajuda a reduzir a carga mas não substitui essa avaliação.

A dor difusa à frente do joelho, sem ponto doloroso ao toque, que aparece com volume e piora em subidas, é outra história e costuma ligar-se ao selim baixo. O artigo sobre dor no joelho e o mapa de sintomas ajudam a distinguir, mas num adolescente a dúvida resolve-se no médico.

Cleats: quando passar a pedais de encaixe

Não há idade certa. Os pedais de encaixe fixam o pé, e com isso fixam qualquer assimetria que a criança compensava à vontade com pedais planos. Faz sentido passar quando a criança já controla bem a bicicleta, quando os sapatos duram mais do que uma época, e quando alguém mede a posição do cleat em vez de o aparafusar ao centro. Com pés a crescer, o cleat precisa de ser revisto a cada par de sapatos novo.

Lista para pais e treinadores

  • O selim deixa a perna quase esticada em baixo, com o pé a pedalar, não a pousar no chão?
  • A manivela é proporcional à perna, ou é a mesma da bicicleta de um adulto?
  • A criança chega ao guiador com os cotovelos ligeiramente dobrados?
  • Consegue travar com os dedos sem esticar a mão toda?
  • Houve crescimento desde a última vez que alguém olhou para a posição?
  • Há dor localizada abaixo da rótula? Médico primeiro.

A Bike Fit Lab não anuncia um serviço de bike fit para crianças, e preferimos ser claros sobre isso. Se tens um jovem ciclista em casa ou no clube e dúvidas sobre a posição dele, fala connosco: vemos caso a caso o que faz sentido.

Fontes

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