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Fitter a ajustar o cleat com chave Allen, num sapato de ciclismo branco

Dor na anca a pedalar: causas e ajustes

· 5 min de leitura

A anca queixa-se menos vezes do que o joelho ou as costas: num inquérito a mais de 3 000 ciclistas amadores, só 7% reportaram dor na anca. Mas quando aparece, confunde. Pode doer à frente, na virilha, ou atrás, na nádega, e as duas dores têm causas diferentes. Este artigo separa-as e explica o que a posição tem a ver com cada uma.

Duas dores, duas histórias

À frente. A descrição típica é "dor funda na virilha ou à frente da anca quando puxo o joelho para cima". Aparece no topo da pedalada, quando a anca está mais fechada, e piora em posições baixas ou em subidas longas sentado.

Atrás. "Dor profunda na nádega, às vezes com formigueiro a descer pela perna." Aqui o suspeito costuma ser o glúteo e o piriforme, um músculo pequeno que passa perto do nervo ciático. Liga-se mais ao apoio no selim e ao balanço da bacia do que ao ângulo da anca.

Nenhuma destas descrições é um diagnóstico. Servem para orientar a procura, na sessão e, se for caso disso, no médico.

O ângulo que decide: a anca no topo da pedalada

A medida que mais importa para a dor anterior é a flexão da anca no ponto mais alto da pedalada. A referência clínica que usamos aponta para uma faixa normal de 65 a 90 graus de flexão nesse ponto, com uma regra de segurança: a flexão da anca a pedalar deve ficar pelo menos 15 graus abaixo do máximo que a tua anca consegue deitado, sem dor. Se a tua anca só flete até 100 graus e a posição exige 95, cada pedalada vai bater no limite.

O relógio da pedalada e a força de cada perna ao longo de uma volta À esquerda, um círculo como um relógio: ponto morto superior às 12 h, pico de força às 3 h, ponto morto inferior às 6 h, fase de potência da 1 às 5 h e recuperação das 7 às 11 h; uma manivela roda. À direita, duas curvas de força ao longo de uma volta, uma por perna, desfasadas 180 graus. 12 h 3 h 6 h 9 h Força no pedal, uma volta 12 h 3 h 6 h 9 h 12 h perna direita perna esquerda 12345
  1. Ponto morto superior (12 h) A manivela está no topo e a perna quase não produz força. O joelho e a anca estão no ângulo mais fechado; é aqui que um selim alto ou manivelas longas se fazem sentir.
  2. Pico de força (3 h) Com a manivela horizontal, a força no pedal é máxima e quase toda vertical. A fase de potência vai de pouco depois das 12 h até pouco depois das 6 h, com o pico entre as 2 h e as 4 h; é onde a posição mais rende.
  3. Ponto morto inferior (6 h) Perna estendida, força quase nula. O ângulo do joelho aqui (140–150° em movimento, ou seja 30–40° de flexão) é uma das medidas-chave para a altura do selim.
  4. Recuperação (7–11 h) A perna sobe sem empurrar; é a outra perna que faz o trabalho. Mesmo em ciclistas treinados a força aqui é muitas vezes negativa. Puxar ativamente ajuda pouco; o que importa é não travar o pedal.
  5. O que o 3D mede A câmara regista cada volta: cadência, o ângulo das articulações em cada fase e a simetria entre a perna esquerda e a direita. Diferenças grandes entre lados orientam o ajuste.
O relógio da pedalada visto do lado direito: potência das 12 h às 6 h com pico entre as 2 h e as 4 h, recuperação das 7 às 11 h. À direita, a força de cada perna ao longo de uma volta, desfasada 180°. Curvas esquemáticas.

Quatro coisas fecham a anca no topo:

  • Selim baixo. O joelho sobe mais e arrasta a anca.
  • Selim recuado. O tronco inclina-se mais para a frente para chegar ao guiador, e a anca fecha pelo outro lado.
  • Manivela comprida. Cada 5 mm a mais de manivela aumenta a flexão máxima da anca e do joelho em cerca de 2 a 3 graus. Passar de 172,5 para 165 mm é uma das ferramentas mais diretas para abrir a anca.
  • Guiador baixo e longo. Quanto mais o tronco desce, menos espaço há para a coxa subir.

A leitura inversa também vale: se a tua anca é pouco móvel, uma posição que no papel está "normal" pode ser demasiado agressiva para ti. Explicamos isto no artigo sobre altura do selim, que não se resolve com uma fórmula.

Quando o osso manda

Há ancas que não toleram a flexão exigida pela posição por uma razão anatómica, não muscular. O impacto femoroacetabular, conhecido pela sigla FAI, é uma forma da cabeça do fémur ou do rebordo da bacia que faz os dois ossos tocarem-se em flexão profunda. Um sinal que o fitter pode observar: rotação interna da anca abaixo de 20 graus com a anca a 90 graus de flexão. Nesses casos a resposta não é forçar a posição, e a avaliação ortopédica vem antes de qualquer ajuste fino.

Uma perna mais comprida

Se a dor é só de um lado, a pergunta seguinte é se as pernas têm o mesmo comprimento. A perna mais comprida flete mais no topo da pedalada, porque o selim está ajustado para a perna mais curta ou para o meio. É um dos padrões que procuramos na avaliação, e tratamos dele no artigo sobre discrepância de comprimento das pernas.

Piriforme e glúteo: a bacia a balançar

Para a dor posterior, a ligação com a posição é sobretudo saber de oficina, com menos estudos por trás. O padrão que os fitters descrevem é uma bacia que não está estável no selim: porque o selim é demasiado alto e a bacia bascula de lado a lado para alcançar o pedal, ou porque a largura do selim não corresponde aos ísquios e o apoio fica em tecido mole. O glúteo e o piriforme trabalham para estabilizar o que o selim não estabiliza. No mapa de sintomas encontras a lista completa de causas para esta região.

O que o fitter costuma ajustar

Na sessão, a anca aparece em dois momentos. Na avaliação individual, fora da bicicleta, medimos a mobilidade da anca e comparamos os dois lados. Na avaliação em movimento 3D vemos a flexão real no topo da pedalada e se a bacia se mantém estável.

Os ajustes seguem a lista de causas: subir ou avançar o selim, manivelas mais curtas, subir e encurtar o guiador, cleats e solas mais finos se o pé estiver a roubar espaço, calço na perna curta quando há diferença. Depois, reavaliação a pedalar, para confirmar que a anca abriu e nada piorou noutro sítio. Sobre a manivela em particular, escrevemos o artigo manivelas curtas.

Sinais de alarme

Isto não é um diagnóstico. Procura um médico, antes de qualquer ajuste, se tens:

  • Dor na virilha com "clique" ou sensação de bloqueio.
  • Dor noturna ou em repouso.
  • Dor que irradia abaixo do joelho com perda de força ou dormência na perna.
  • Dor que começou depois de uma queda.

Se a dor só aparece a pedalar e passa quando sais da bicicleta, é provável que a posição tenha uma palavra a dizer. Marca uma sessão e conta-nos onde dói e em que momento da pedalada.

Fontes

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